Lembra?

Eu não sei mais se você lembra de mim. Na verdade sei que lembra, mas não sei se lembra das nossas histórias. Lembra? Já morei com você por muitos meses, mas a sua casa sempre foi a minha favorita. Lembra de quando você fazia leite com Nescau para mim e resolvia colocar leite condensado no meio? Lembra quando você cantava “puxa, puxa, puxa a vassoura da bruxa” para que eu usasse o canudo? Lembra das vezes em que você cozinhou ou pediu que alguém cozinhasse carne ao molho, macarrão e purê porque receberia a nossa visita? Lembra de quanta gelatina sabor morango eu já comi? Lembra de quando fazíamos compras juntas e você me dava um pedaço de bacalhau? Lembra de quando eu escrevi uma carta pedindo que você parasse de fumar e você, muito metida a rebelde, resolveu rasgar e eu acabei vendo? Acho que você não sabe que eu vi, mas eu fiquei triste. Tinha aprendido na escola que fumar fazia mal e poderia antecipar a morte… e eu queria você por muito mais tempo. Eu não tenho tantas lembranças assim de quando era pequena e sei que algumas não são tão boas… quero saber das boas que você lembra. Me conta?

Eu não sei se você lembra, mas já sentamos juntas diversas vezes para assistir Orgulho e Preconceito. Um filme que eu amo e que você também ama. Os seus cometários eram sempre os mesmos: “que filme lindo”, “esse filme não tem maldade”… e, se pudesse, você assistia ele direto. Lembra das vezes que uma ligava para a outra e conversava por alguns minutinhos? Lembra de quando eu respondia com esse meu jeito meio engraçado querendo ser chata e você gargalhava? Lembra de todas as vezes em que você veio à minha casa, até dormiu aqui e disse que era a sua segunda casa? Lembra de todas as vezes que a gente conversou besteira, de todas as vezes que cozinhamos pensando na outra e todos os “eu te amo” que deixamos entalados (com você também era assim, imagino) por conta da vergonha?

Eu não sei se você lembra dessas coisas e dói quando penso que pode não lembrar, mas sabe de uma coisa? Que bom que vivemos tudo isso. Eu agradeço por todos os momentos e tenho a felicidade de poder lembrar de tudo. Espero fazer carinho na sua cabeça até o final, mesmo que você não lembre de mim.

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De um dia ensolarado com você. Ficam todas as lembranças.

Eu te amo.

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Lembranças de um 13 de agosto

Há 4 anos eu estava em sua casa. Era um sábado e almoçaríamos juntos. Era o último dia que nos veríamos aqui, mas não sabíamos. Eu lhe dei um simples alfajor de doce de leite que havia comprado, mas você, com toda a sua doçura, falou: “um presente único!”. Essa frase ainda ilumina o meu sorriso.

Entre uma conversa e outra, um choro seu ao lembrar-se de um irmão que já havia partido. Um choro seu, mas que ecoou em lágrimas minhas. Eu, que não lembrava tê-lo visto chorar, mesmo achando que já presenciei tal cena.

Entre um simples presente, choro, conversas e risadas, os tradicionais abraços de chegada e despedida. O abraço de despedida foi… uma despedida. Um dos dias mais marcantes da minha vida e que, por vezes, me faz querer voltar ao tempo para receber mais um abraço e ouvir mais uma piada.

Obrigada por tudo, vovô. Quero um abraço da próxima vez.